Ser bom pai é genético?

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No século do DNA, tudo é culpa da genética. Se comemos demais é porque nossos ancestrais da Idade da Pedra passavam fome, e só sobreviveram aqueles com genes glutões que, quando surgia a oportunidade, caíam de boca no mamute abatido. Se traímos a companheira, de novo, culpa da genética que selecionou aqueles com genes mais libidinosos, que assim deixariam mais descendentes. E se traímos o companheiro, também é a genética que levou as fêmeas a escolherem os melhores pais biológicos e pais sociais para suas crias, mesmo que não calhassem de serem o mesmo (como já contei aqui neste post).  E por aí vai.

E ser bom pai ou boa mãe? É também culpa do DNA? Pelo menos em parte, parece que sim… Pesquisadores de Harvard* estudaram um gênero de camundongos (Peromyscus) que existe em duas linhagens: uma monogâmica e outra promíscua – vamos chamá-los aqui de P.monog. e P.promisc.

Observando os bichinhos das duas linhagens com seus filhotes, os pesquisadores descobriram que além das diferenças de fidelidade matrimonial (ou sexual), eles também cuidavam de seus filhotes de forma distinta: enquanto pais e mães da linhagem P.monog. faziam ninho, lambiam e cuidavam de seus filhotes tanto quanto as mães, pais P.promisc. não estavam nem aí com a criançada. As mães P.promisc também não eram lá essas coisas, mas a diferença maior de cuidado com os filhotes era observada entre os pais das duas linhagens – além de promíscuos, os P.promisc eram mau pais.

Antes de culpar a genética, os cientistas de Harvard testaram se o problema era Freudiano: será que os pais P.promisc. tratavam mal seus filhotes porque foram maltratados pelos seus pais? Nããããooo. Adultos P.promisc. criados desde o nascimento por carinhosos pais P.monog. seguiam sendo negligentes com seus filhotes.

Mas será que os P.monog. cuidam mais de seus filhotes porque eles requerem mais cuidado, enquanto que os filhotes P.promisc. já “nascem prontos”, e por isso os pais podem relaxar? De novo, não. Fazendo pais de uma linhagem cuidarem dos filhotes da outra linhagem não alterou o comportamento de mau/bom pai.

Só nos resta então a genética. Então vamos a ela. Os pesquisadores cruzaram animais monogâmicos com promíscuos, gerando uma descendência com diferentes misturas de genes P.monog. e P.promisc. Analisando o comportamento de paternidade nesses mais de 700 camundongos, eles identificaram 12 regiões do genoma do camundongo relacionadas aos comportamentos de fazer ninho, lamber e cuidar dos filhotes! Na região associada a fazer ninho, os pesquisadores identificaram um gene interessante, que produz a proteína vasopressina.

Os P.monog. produzem pouca e os P.promisc., muita. Quando a vasopressina foi injetada no cérebro dos bons pais P.monog., estes deixaram de fazer seus belos ninhos, enquanto a inibição da vasopressina levou outros camundongos a melhorarem sua atividade de fazer ninhos.

O estudo é fascinante ao dissecar parte do circuito genético envolvido no comportamento parental, e muito mais deve vir por aí, afinal, ainda falta descobrir os outros 11 genes que estão atuando nesses comportamentos. E, depois, estudar como esses mesmos genes controlam diferentes comportamentos em gente. Por fim, falta saber o que fazer com essa informação: uma pílula ou spray de inibidor de vasopressina? Ou um teste genético pré-nupcial no noivo?

P.S.: fiquei me perguntando porque a turma de Harvard não usou os mesmos camundongos para estudar a genética da promiscuidade/fidelidade… Medo das consequências?

 

*O artigo “The genetic basis of parental care evolution in monogamous mice” com as conclusões desse estudo está aqui na revista Nature.

 


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