Precisamos do Dia Internacional da Mulher?

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Confesso que me irrita um pouco esse negócio de termos um dia “nosso”, e os mil whatsapps com flores, músicas, corações, piadas ridicularizando os homens, e tudo mais que recebo durante esse dia todo.  Receber parabéns então, sei lá bem o porquê, mas acho uma besteirada, uma forçação de barra.

Mas hoje, vindo de carro para a USP, primeiro ouvi no rádio umas estatísticas terríveis: ano passado, uma média de 500 mulheres foram agredidas (física ou verbalmente) POR HORA no Brasil! E mais: 2 em cada 3 pessoas presenciaram mulheres sendo agredidas, a maioria por pessoas conhecidas, e, seguindo o ditado popular de que “em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, a maioria não fez nada.

Em seguida, percebo espalhados pelo campus cartazes pedindo um basta à violência às mulheres, outros dizendo que as mulheres têm direito a se sentir seguras andando sozinhas, e por aí afora: uma campanha contra violência dirigida à mulher, vítima dentro da maior universidade do país, centro da suposta elite intelectual do Brasil.

Finalmente, em meu lab, fui entrevistada pela TV Cultura para uma matéria sobre mulheres e tecnologia.  A repórter queria muito que eu falasse das dificuldades de ser mulher na ciência – as que senti não acho que sejam específicas da ciência, mas inerentes da biologia e cultura feminina: conciliar profissional com o pessoal, nosso grande desafio (já falei disso no texto “Ser mulher é coisa para macho”)!

Até que ela me perguntou se a mulher é “ensinada” desde cedo a ser inferior.  Lembrei do dia que uma amiga deu de presente para minha filhota Gabi, de 2 anos, um kit de vassoura, rodo e ferro de passar roupa de brinquedo. Fiquei puta! Não há nenhum demérito em limpar a casa e cuidar da roupa, mas alguém daria isso para um menino?! E me dei conta de que de fato, desde sempre, os brinquedos femininos são “do lar” ou maternais (e esse último é um instinto maravilhoso do qual devemos nos orgulhar e aproveitar). Enquanto isso, meninos ganham super-heróis, com os quais imediatamente se identificam, armas e outros objetos que passam a mensagem nem tanto subliminar de liderança.

Isso é uma observação minha, superficial, sem grande metodologia científica envolvida. Mas li recentemente um artigo da Science mostrando que o estereótipo de homens terem mais capacidade intelectual do que mulheres (que se reflete em mulheres buscarem carreiras prestigiosas com menos frequência do que homens) já está presente em crianças de 6 anos!

Pois é, concluo então que talvez nós mulheres precisemos mesmo de um dia Internacional para que o mundo pare e tome consciência dessas barbáries.  Sim, a vida da mulher já foi infinitamente pior (ainda é em alguns países), progredimos muito, principalmente nos últimos dois séculos, mas obviamente ela pode e deve melhorar.


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