Os charlatões das células-tronco

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De todas as perguntas que respondo sobre células-tronco (CTs), as mais delicadas são as de pacientes e familiares querendo saber se já existe algum tratamento para sua doença – são dezenas delas todos os meses.  Hoje mesmo recebi a mensagem da mãe de um rapaz que sofreu um AVC e ficou com diversas sequelas, e agora, sem outra alternativa terapêutica, quer ir se tratar numa clínica na Tailândia.  “Ele deve ir, doutora?”. 

A pergunta é absolutamente natural e justificada – afinal, com sua capacidade de regenerar órgãos e tecidos, as CTs são a grande promessa terapêutica do século XXI, e nos últimos 15 anos cientistas do mundo todo trabalham para transformar esta promessa em realidade.  Porém, em geral a pergunta é baseada na percepção de que as CTs já fazem parte de uma realidade médica, tratando desde infarto e diabetes até gripe suína.

Mas não fazem?  Não.  Até hoje, o único tratamento com CTs consolidado é o transplante de medula óssea ou de sangue do cordão umbilical, utilizado principalmente no tratamento de leucemias e outras doenças do sangue.  Todas as outras aplicações das CTs, seja em infarto ou lesão de medula, são ainda experimentais.  É verdade que, em várias doenças, já passamos dos testes em animais para testes em seres humanos, porém ainda são testes em andamento.

Entre a enorme expectativa dos pacientes e a forma por vezes sensacionalista como as CTs são apresentadas, não é de se admirar que muita gente acredite que elas já estejam incorporadas à medicina de consultório.  Infelizmente, isso levou ao surgimento – em vários países – de um comércio de tratamentos milagrosos com CTs para doenças hoje incuráveis, como este, que o rapaz quer fazer na Tailândia.  A comunidade científica repudia veementemente essas práticas, não fundamentadas experimentalmente, aéticas, e que submetem os pacientes a riscos desnecessários.

Algumas famílias argumentam que não têm nada a perder, mas se enganam.  Em 2009, foi relatado o resultado de um desses tratamentos misteriosos com CTs oferecidos em uma clínica na Rússia: o desenvolvimento de múltiplos tumores no cérebro de um menino que buscava tratamento para sua doença neurodegenerativa.  Em 2010, uma paciente com lúpus que recebeu injeções de CTs na Tailândia desenvolveu tumores nos rins.  E este ano, uma clínica de CTs na Alemanha, que funcionava se valendo de uma brecha na legislação do país, foi fechada após a morte de duas crianças que receberam injeções de CTs no cérebro.   Atenção, por enquanto tratamentos com CTs só podem ser realizados em instituições de pesquisa, com a aprovação dos respectivos comitês de ética, e sem nenhum custo financeiro para os pacientes.

Entendemos e somos absolutamente solidários com o sofrimento e a ansiedade dos pacientes e familiares que aguardam os tão prometidos tratamentos com CTs.  Porém, precisamos primeiro averiguar se essas terapias são seguras, e depois se são de fato eficazes para aquelas doenças antes de torná-las disponíveis para a população.  Existe uma linha tênue entre a ousadia e a irresponsabilidade, mas pesquisadores de verdade sabem muito bem respeitar esse limite.  Apesar da urgência dos pacientes, o desenvolvimento científico sério deve ser feito de forma absolutamente responsável para que um dia possamos de fato transformar em realidade a promessa terapêutica das CTs.  E assim, mãe do paciente, meu papel como cientista é dizer “O tratamento tailandês não deve ser sério… Não vá.” (mas não é com meu filho, né?).


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